
segunda-feira, 22 de janeiro de 2007
Prólogo
- EU NÃO CONSIGO VER! - gritou a menina, ansiosa.
- Já disse para se acalmar!Deixe-me primeiro mover o excesso de terra - falou o garoto, esforçando-se para mover o acúmulo de terra que obstruía a passagem.
Estavam próximos ao Rio Shannon que circundava o Condado de Westmeath, região centro-norte da Irlanda, a qual se gabava por possuir uma paisagem deslubrante, repleta de montes suaves, campos bem tratados e zonas selvagens com turfeiras. Após alguns minutos, o menino havia removido toda a terra impertinente e ambos puderam visualizar o que havia atrás da muralha que interditava o caminho: mais terra.
A medida em que avançavam nas precárias remoções manuais de terra, viam-se livres para diferir alguns passos a diante, mas logo já se deparavam com outra enorme muralha.
- Eu nunca vi isso antes - disse o menino, limpando o suor da testa. - Acho que é melhor voltarmos para casa.
- De jeito algum! - exasperou a menina. - Caminhamos todo este trajeto para desistirmos no primeiro CeilLubra que encontramos? Eu não irei voltar.
- O que você falou Kelly?
- Falei que não irei voltar, e não adianta...
- Não, antes disso! O que você disse que era? - interrompeu o menino, assustado.
- O quê foi que eu disse, Liam? Alguma palavra que não pode ser pronunciada?- a menina disse em um tom mais baixo, esquadrinhando com cuidado a sua volta.
- Não. Você disse que isso se tratava de um CeilLubra.
- Oh meu Deus! - gritou a menina, levando as duas mãos à boca. - De novo, não!
O menino fitou a irmã por alguns segundos. Sabia que ela apresentava esporadicamente surtos de amnésia, devido a um acidente há dois anos, no qual sofreu uma grave lesão na parte inferior da cabeça.
- O que eu disse?
- Você disse que não iria desistir no primeiro CeilLubra que você encontrasse.
- Como se eu soubesse o que é isso... Liam, o que é esse tal de...Cilubra?
- CeilLubra.
- É, isso.
O menino hesitou em responder. Uma série de lembranças percorriam a sua cabeça, como um filme acelerado. Precisava sair da onde estavam o mais rápido possível, sem deixar qualquer vestígio. Não poderia colocar a vida da irmã em risco.
- Eu não sei do que se trata. Agora, vamos embora.
- Eu não irei.
- Ah, você vai sim! - disse o menino, suspendo a garota pelas pernas e a colocando em seu ombro, suportando com paciência os socos inofensivos às suas costas.
Capítulo I - Vovó contava...
- Lembra de uma velha história que vovó costumava contar para nós quando éramos mais novos? – perguntou Liam à sua irmã – Aquela que nos fazia imaginar como eram bonitos os bosques cheio de vida há muito tempo atrás, que eram tão deslumbrantes quanto aquele perto do rio?
- Lembro... – respondeu Kelly, com um ar meio duvidoso – qual era mesmo?
Liam, se lembrando do problema de memória da irmã, resolveu contar a história enquanto a carregava, para aliviar a pressão do perigo que poderia estar vindo e acabar com os socos incessantes de sua irmã.
- “Há 50 anos atrás, quando nossa avó ainda era jovem e viva, dizia ela que haviam muitos bosques enfeitando cidades, água limpa em abundância, o sol era algo tão belo que todos ficavam deitados sobre a grama fresca assistindo ao seu pôr enquanto esperavam seus pais voltarem do trabalho. Nossa avó tinha um cachorrinho marrom chamado Pipoco, e saíam juntos todas as manhãs para passear entre as ruas de sua pequena vila, a que um dia veio a se tornar a capital Weatsmeath, não muito diferente da que nós conhecemos hoje. Ela contava sobre um lugar que só ela e seu cachorro conheciam, que levava horas para se chegar andando: uma floresta onde o Rio Shannon nascia, com lindas pedras cor vinho e amarelo em suas margens, arbustos que pareciam ter sido esculpidos por alguém pela sua beleza, e árvores cheias de flores e mais tarde se tornavam frutos. Havia um pequena caverna nessa floresta, dizia ela,que ficava na frente da única árvore que ousou crescer às margens da nascente. Vovó contava que nunca conseguiu realmente entrar na caverna, pois tinha medo de acabar não voltando, hehe.”
- Liam, você sabe onde fica essa árvore? – perguntou a menina – Me leva lá?
- Agora não, Kelly – respondeu o irmão um pouco desapontado – não há tempo, agora temos que sair daqui depressa.
- Lembro... – respondeu Kelly, com um ar meio duvidoso – qual era mesmo?
Liam, se lembrando do problema de memória da irmã, resolveu contar a história enquanto a carregava, para aliviar a pressão do perigo que poderia estar vindo e acabar com os socos incessantes de sua irmã.
- “Há 50 anos atrás, quando nossa avó ainda era jovem e viva, dizia ela que haviam muitos bosques enfeitando cidades, água limpa em abundância, o sol era algo tão belo que todos ficavam deitados sobre a grama fresca assistindo ao seu pôr enquanto esperavam seus pais voltarem do trabalho. Nossa avó tinha um cachorrinho marrom chamado Pipoco, e saíam juntos todas as manhãs para passear entre as ruas de sua pequena vila, a que um dia veio a se tornar a capital Weatsmeath, não muito diferente da que nós conhecemos hoje. Ela contava sobre um lugar que só ela e seu cachorro conheciam, que levava horas para se chegar andando: uma floresta onde o Rio Shannon nascia, com lindas pedras cor vinho e amarelo em suas margens, arbustos que pareciam ter sido esculpidos por alguém pela sua beleza, e árvores cheias de flores e mais tarde se tornavam frutos. Havia um pequena caverna nessa floresta, dizia ela,que ficava na frente da única árvore que ousou crescer às margens da nascente. Vovó contava que nunca conseguiu realmente entrar na caverna, pois tinha medo de acabar não voltando, hehe.”
- Liam, você sabe onde fica essa árvore? – perguntou a menina – Me leva lá?
- Agora não, Kelly – respondeu o irmão um pouco desapontado – não há tempo, agora temos que sair daqui depressa.
sábado, 20 de janeiro de 2007
Capítulo 2
- Cerquem-na.
- Mas, senhor, eu creio que não será necessário.
- Obedeça às minhas ordens, homem! - disse o velho Coronel, limpando os dedos sujos de fumo no uniforme impecável.
O sargento vociferou um comando para o restante do grupo, que amontoava-se em frente à Árvore da Nascente.
- Quero esta área isolada o quanto antes! - gritou o Coronel, dirigindo-se para a recém-armada cabana de lona.
O vento frio cortava-lhe o corpo como uma milindrosa navalha, e a neblina que surgia do meio do rio à sua frente encobria parcialmente a visão da outra margem. Se alguém estivesse se aproximando para alguma tentativa de ocupação do local onde eles se encontravam, as ações de defesa tornariam-se vagarosas. Ação eficiente eram as palavras de ordem do Coronel. Pensava em mandar um homem para a outra margem o mais rápido possível. Todas as precauções deveriam ser tomadas de modo a evitar qualquer interrupção nos planos. O coronel ponderou por vários instantes a idéia de ordenar que alguém fosse à margem oposta, porém, sabia que atravessar o rio nas condições expostas seria suícidio. A névoa ganhava expessura e o barulho quase inaudível antes das águas, tranformava-se em uma turbulenta moção de ondas e suspiros.
O coronel posicionou-se na borda do rio e molhou a ponta do dedo indicador na água escura. Levou o dedo à boca e constatou o que temia. Não era hora de atravessar o rio. As águas tinham um teor maníaco jamais visto antes. O raciocínio do coronel já estava tomado pelo medo e a incerteza. O sabor doce instalava-se em suas glândulas, dominando seu paladar. Já não havia mais razão para continuar a busca. Sangue. A água do rio apresentava uma matiz rubro-acizentada. As mãos trêmulas do homem alterado pelos seus batimentos cardíacos descontrolados mergulham mais profundamente nas águas do rio, à procura do imaginado. Era triste de mais para ser verdade. O coronel acaricia uma textura coloidal. Era triste de mais para ser verdade. O rio Shannon demonstrava a sua fúria impiedosa. Não haveria regresso. Era triste de mais encarar a verdade.
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